Cartas de Van Gogh a Theo
Meu caro irmão,
Obrigado por sua gentil carta e pela nota de cinquënta francos que ela continha. Já que as coisas vão bem, o que é o principal, por que insistiria eu em coisas de menor importância? Por Deus! Provavelmente se passará muito tempo antes que se possa conversar de negócios com a cabeça mais descansada.
Os outros pintores, independente do que pensem instintivamente mantêm-se à distância das discussões sobre o comércio atual.
Pois é, realmente só podemos falar através de nossos quadros. Contudo, meu caro irmão, existe isso que eu sempre lhe disse e novamente voltarei a dizer com toda a gravidade resultante dos esforços de pensamento assiduamente orientado a tentar fazer o bem tanto quanto possível -volto a dizer-lhe novamente que sempre o considerarei como alguém que é mais que um simples mercador de Corots, que por meu intermédio participa da própria produção de certas telas, que mesmo na derrocada conserva sua calma.
Pois assim é, e isto é tudo, ou pelo menos o principal, que eu tenho a lhe dizer num momento de crise relativa. Num momento em que as coisas estão muito tensas entre marchands de quadros de artistas mortos e de artistas vivos.
Pois bem, em meu próprio trabalho arrisco a vida e nele minha razão arruinou-se em parte -bom-, mas pelo quanto eu saiba você não está entre os mercadores de homens, e você pode tomar partido, eu acho, agindo realmente com humanidade, mas, o que é que você quer?
(Carta encontrada com Van Gogh na ocasião de sua morte, 29 de julho de 1890.)
VAN GOGH, Vincent. Cartas a Théo. Tradução de Pierre Ruprechet. Porto Alegre: LPM Pocket, 2002. p.421.
Nota: Ao comentar que “as coisas vão bem”, Van Gogh provavelmente se refere ao nascimento do filho de Théo, à publicação de um estudo sobre sua pintura no Mercure de France e à venda de seu quadro A Vinha Vermelha, única obra que Van Gogh vendeu em vida.

Apesar das boas novas, o artista, que estava internado em um hospital psiquiátrico em Saint-Paul-de-Mausole desde maio do ano anterior (1889), entra em desespero e tenta se matar. Vincent é levado para Paris e ainda este ano (1890) pinta cerca de 80 obras. No entanto sua depressão se agrava e ele se suicida com um tiro no peito. Após a morte do irmão, Théo tenta organizar uma exposição com as obras de Van Gogh, mas a exposição é impedida e Théo entra em surto. Em janeiro do ano seguinte (1891) Théo Van Gogh morre e a obra de Vincent é avaliada tão modestamente que muitas pessoas aconselham a viúva de Théo a destruí-la. Cem anos após sua morte, o Retrato do Dr. Gachet, de Vincent Van Gogh é vendida por 82,5 milhões de dólares, a maior transação da história do mercado de arte até então.